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O tambor-mor

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  Era um tambor mágico. A gente tocava nele e ele nada. Não respondia. Os outros tambores, os vulgares tambores pequenos e grandes, pintados de vermelho e amarelo ou de azul e cor-de-rosa, de pele esticada e lisa, mal se lhes batia na face, muito ao leve que fosse, com uma vara ou um dedo diziam logo:

   — Plão

   Batia-se com mais força e mais vezes, e eles:

   — Plão, rataplão, plão, pião!

   Eram tambores a sério. Serviam para brincar e os maiores iam sempre à frente, nas marchas, a marcarem o passo dos soldados:

   — Plão, plão, plão-rataplão Plão-plão, plão-rataplão. Plão-plão, plão-rataplão.

   E ai do soldado que se atrasasse! Ele, o tambor, exigia muita ordem, muita disciplina e um passo sempre certinho.

   — Plão, plão, plão-rataplão...

   Mas o tambor da nossa história, o tal do princípio, o que diziam mágico, era ou parecia mudo. Nem pião, nem plam, nem plim, nem pló. Nem sequer tic ou toc. Não dizia nada, absolutamente nada.

   Comprara-o o rei Escamiro num leilão de um país vizinho que mudara de governantes e andava por isso em grandes trabalhos de limpeza e arejamento dos sótãos do reino. E comprara-o por bom dinheiro.

   — Este tambor mágico pertenceu a Briolanjo, Príncipe da Espertina e foi-lhe oferecido pelo ilustre sábio Nota de Rodapé, que o fabricou segundo receita do famosíssimo Mago Ó Reticências... — anunciava o pregoeiro, de dedo espetado para o tamborinho, sobre a mesa do escrivão.

   — Dou dez moedas — disse uma voz.

   — Dobro — disse o rei Escamiro.

   — Vinte e cinco moedas — disse a mesma voz.

   — Dobro — disse o rei Escamiro.

   — Sessenta moedas — disse, hesitando, a tal voz.

   — Dobro — disse sem hesitações, o rei Escamiro.

   A tal voz perdeu a voz e o rei Escamiro, todo contente, levou o tambor para casa, isto é para o palácio real.

   Assim que chegou ao palácio do seu reino, foi experimentá-lo, a ver se lhe descobria a mágica, mas o tambor recusou-se. Nem plão, nem plan, nem plim... Nada. "Tem caprichos o tambor ou então precisa de palavras mágicas." Mas, como na caixa do tambor não vinham nenhumas instruções sobre palavras mágicas, o rei Escamiro, que tinha mais em que pensar, depressa se aborreceu do brinquedo que tão caro lhe custara. Foi à sua vida de rei de um grande reino e o tambor para ali ficou, esquecido numa gaveta.

   Vivia nesse reino, no tal reino onde tinha ido parar o tambor mágico, um menino que queria ser tambor-mor.

   — Mãe, eu quero ser tambor-mor — pedia o menino de minuto a minuto.

   — Basta de teimas. Não hás-de ser tambor-mor, mas cocheiro-mor — dizia-lhe a mãe.

   E o menino, contra vontade, lá foi trabalhar como aprendiz de cocheiro para as cavalariças reais. Se desse conta do recado, daí a muitos anos havia de ser cocheiro-mor. Mas o menino não dava conta do recado e, como não dava conta do recado, mandaram-no para os jardins reais, como aprendiz de jardineiro. Se desse conta do recado, daí a muitos anos havia de ser jardineiro-mor. Mas o menino não dava conta do recado e, como não dava conta do recado, mandaram-no para a cozinha, como aprendiz de cozinheiro. Se desse conta do recado, daí a muitos anos havia de ser cozinheiro-mor.

   Mas o menino não dava conta do recado e, como não dava conta do recado, mandaram-no para o serviço de limpeza, como aprendiz de limpa-pó. Se desse conta do recado, daí a muitos anos havia de ser limpa-pó-mor. E assim por aí fora até que, um dia, era o menino aprendiz de qualquer coisa, foi dar com o tambor esquecido numa gaveta do palácio.

   Então o menino ficou muito satisfeito com o achado e, sabe-se lá porquê, veio-lhe à cabeça esta cantiga assim:

Olha um tambor todo pimpão.
De pele de burro, fez-se trovão.
Acorda o rico, o pobre, o cão
e a tropa toda da guarnição.
Acorda o rei e o capelão,
acorda todos, sem distinção,
que, muito anchos, atrás dele vão
a ver se ele diz se sim, se não.
E o menino tocou-lhe com os nós dos dedos. Tocou-lhe e o tambor disse:

   — NÃO.

   Era, realmente, um tambor mágico.

   Há coisas assim. Estava o tambor para ali, sem que ninguém lhe ligasse nenhuma e, por acaso, aparecia um rapazinho que cantava uma lengalenga rimada, de tal forma entrançada de palavras cheias de maravilha ou artimanha, que o tambor, num resmungo de quem acorda de um longo, longo sonho, respondia que não. Há, de facto, coisas assim que ninguém consegue explicar.

   A novidade rolou como um vagalhão e assarapantou a corte. Veio o rei Escamiro, em pessoa e em camisa, porque já eram horas de estar deitado, presenciar o prodígio. Afinal o tambor falava. Estava aí a mágica que durante tanto tempo ele escondera, debaixo da pele esticada e encerada. Que real surpresa!

   E, então, o tambor começou a dizer coisas. Só quando o rapazinho lhe tocava com os nós dos dedos, é que ele dizia coisas, e, às vezes, até falava demais — demais para tambor, tanto tempo calado. Por exemplo:

   — Não é solução que o grão e o feijão custem um dinheirão.

   E, enquanto os mercadores não baixaram, por ordem real, o preço do grão e do feijão, o tambor não se calava.

   Mas, mesmo assim, dias depois, lá vinha com outra sentença:

   — Não basta baixar o preço do grão e do feijão. Vejam o pão! Rataplão! Vejam o sabão! Rataplão! Vejam o carvão! Rataplão! Está tudo por um dinheirão. Rataplão, pião, pião! Rataplão, pião, pião!

   Ia o rei a correr ordenar aos seus ministros que, fosse como fosse, tinham de vigiar os preços do pão, do sabão, do carvão e de tudo o mais, acabasse ou não em ão... Tinham de vigiar, tinham de acautelar, tinham de dominar os preços das coisas, caramba!

   — Caramba, baixem-me esses preços — gritava o rei para quem ainda o queria ouvir. — Baixem-me esses preços depressa, porque já não se pode viver neste palácio com tanto rataplão.

   Serenava o tambor, quando chegava ao trono a notícia de que o povo já não tinha de sacrificar o sabão para comprar o pão ou já não tinha de sacrificar o pão para comprar carvão. Os mercadores esses é que andavam danados.

   Como se isso soubesse, o tambor, espevitado pelas mãos do menino aprendiz de tambor-mor, proclamava a sua nova música:

   — Não, não e não, não é solução que durma no chão quem. não tem colchão.

   O rei, que tinha posto bolinhas de algodão nos ouvidos, ficava fulo:

   — O quê? Que quer ele agora? Que proíba os pobres de dormir no chão? Ou que distribua colchões pelos pobres? O tambor explicava melhor:

   — Plão, rataplão! Não basta dar colchão a quem não tem colchão. É preciso ver primeiro com atenção, porque é que há uns tantos muitos a dormir no chão, enquanto uns tantos poucos dormem em cima de mais do que um colchão. Rataplão!

   Não lhe liguem. Mais tarde ou mais cedo, o tambor cala-se ou o rei manda-o calar — diziam os mercadores e outros grandes senhores, impacientes.

   Estavam enganados os mercadores e outros grandes senhores. O tambor não se calava. Oiçam o que mais ele tinha para dizer:

   — Para uns, salmão, faisão, peru, melão... Para outros, pão e azeitonas, azeitonas e pão. Não é solução! Rataplão. Rataplão. Rataplão.

   — O tambor está doido. Que quer ele mais? — berrava o rei Escamiro, cuspinhando pevides de melão. — Por este andar, tenho de metê-lo nos calabouços do palácio, a fazer companhia aos revolucionários.

   Mas o tambor não tinha medo. E, por sua vez, ele, tambor de pele esticada e rija, também gritava:

   — É valentão fracalhão o que mete na prisão quem tem razão. Plão, rataplão! Plão, rataplão! Quem está na prisão tem razão!

   — Guardas, fuzilem-me esse maldito tambor. Destruam-no, esfacelem-no, dêem cabo dele — gritava o rei, numa grande birra.

   Um dos capitães dos guardas ainda lhe lembrou:

   — Mas, Majestade, vai um menino com ele pendurado a tiracolo. É o aprendiz de tambor-mor...

   — Não me interessa! Dêem cabo dele, dêem cabo deles. Não quero ouvir mais esse tambor danado. Calem-no de vez.

   Qual quê? O tambor nas mãos do menino já saía do palácio, já descia a colina que do palácio leva à cidade, já atravessara as portas da cidade, já para ele se abriam todas as estradas do reino... Ena tanto povo atrás do tambor! Ena tanto povo à beira das estradas, à espera do tambor!

   E havia outros tambores que respondiam. E já eram muitos tambores a gritar qual não era a solução e a gritar qual devia ser a solução...

   Com tanto tambor no reino a fazer ressoar as suas boas razões, não havia algodão nos ouvidos que bastasse ao rei Escamiro. Teve de fugir. Fugiu ele e fugiram, numa grande balbúrdia de colchões pelo ar, de feijões pelo chão, os mercadores e outros grandes senhores.

   Ficaram os tambores.

   Esta história, que podia ser talvez uma história muito grande, tem de terminar onde outras histórias começam: Era uma vez um país maravilhoso...

   Passou tudo a andar mais certinho no país onde entrou o tambor e donde saiu o Escamiro. Tão direito e tão certinho, que, de vez em quando, o tambor descansava e, pendurado à cintura do menino que lhe descobrira a mágica, só dizia a alegria de ser um tambor como os outros.

   — Plão, rataplão, pião, pião!

   Passa a marcha com o tambor à frente e aqui acaba, realmente, esta história.

António Torrado
O tambor-mor e outras histórias
Livros Horizonte, Jan, 1980
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